Upskilling e Reskilling: é possível crescer na Manutenção sem aprender?

Para Peter Drucker, “O conhecimento precisa ser aprimorado, desafiado e aumentado constantemente, ou desaparece.” Ele já apontava que competência evolui,ou se perde.

Nos últimos meses, pesquisamos muito sobre tendências da manutenção para 2025 e 2026. A análise, cruzando conteúdos técnicos, eventos, relatórios e discussões nas redes, revelou três movimentos que atravessam todo o setor:

  1. A manutenção está se tornando mais estratégica;
  2. A tecnologia passou de promessa para ferramenta concreta;
  3. As pessoas voltaram a ser reconhecidas como o centro da transformação.

Por trás desses três elementos existe um fio condutor decisivo: uma mudança profunda na natureza das competências exigidas dos profissionais de manutenção.

Não basta mais “saber fazer” tecnicamente. É preciso:

  • Interpretar dados;
  • Operar sistemas;
  • Comunicar;
  • Priorizar;
  • Analisar riscos;
  • Trabalhar com tecnologia;
  • Atuar de maneira integrada às demais áreas.

Durante muito tempo, o desenvolvimento profissional na manutenção esteve associado quase exclusivamente à experiência prática. Aprendia-se fazendo, repetindo, errando e corrigindo. Esse modelo funcionou por décadas, e ainda tem valor. Mas o contexto mudou. E mudou rápido.

Hoje, o desafio do profissional de manutenção não é apenas consertar. Ele precisa decidir melhor, mais rápido e com mais impacto. E faz isso em um ambiente permeado por:

PRESSÃO POR CONFIABILIDADE: A confiabilidade deixou de ser apenas um indicador técnico e passou a ser um compromisso estratégico com o negócio. Espera-se que os ativos estejam disponíveis, previsíveis e seguros, reduzindo falhas inesperadas, perdas de produção, riscos à segurança e impactos financeiros. É preciso evitar que a falha aconteça.

  • Exemplo: Um equipamento crítico falha repetidamente. Antes, a equipe era reconhecida por restaurar o funcionamento rapidamente. Hoje, espera-se que a equipe de manutenção analise a causa raiz, revise o plano de manutenção, avalie criticidade, ajuste intervalos e proponha melhorias permanentes.

A pressão está em entregar estabilidade, não heroísmo.

PRESSÃO POR DIGITALIZAÇÃO: A manutenção passou a operar em um ambiente orientado por dados. Sensores, sistemas CMMS/EAM, dashboards, históricos, indicadores e análises preditivas fazem parte do dia a dia. A expectativa é que as decisões sejam baseadas em informação confiável, não apenas em experiência individual. Digitalização não é apenas usar tecnologia, mas saber interpretar e agir a partir dela.”

  • Exemplo: Um sistema gera alertas de vibração fora do padrão. O desafio não é apenas registrar a OS, mas analisar o dado, entender a tendência, avaliar risco, priorizar corretamente e decidir a melhor intervenção.

A pressão está em transformar dados em decisão, e decisão em resultado.

PRESSÃO POR COLABORAÇÃO COM VISÃO SISTÊMICA: A manutenção deixou de atuar de forma isolada. Suas decisões impactam produção, qualidade, segurança, meio ambiente, custos e clientes. Por isso, espera-se uma atuação integrada, com visão do todo e capacidade de diálogo entre áreas. Hoje, o profissional precisa entender o sistema, não apenas o equipamento.

  • Exemplo: Uma parada preventiva é tecnicamente necessária. Mas ela precisa ser negociada com produção, alinhada com segurança, comunicada à qualidade e avaliada financeiramente.

A pressão está em equilibrar interesses, comunicar bem e decidir considerando o impacto global.

Essas três pressões acontecem ao mesmo tempo e recaem sobre o mesmo profissional. Por isso, o desafio da manutenção atualmente não é apenas técnico, é cognitivo, analítico e humano.

Essas pressões indicam que:

  • experiência sozinha não basta,
  • tecnologia sem pessoas preparadas não funciona,
  • e aprendizagem contínua deixou de ser diferencial para se tornar necessidade.

Esse novo cenário deixa claro que experiência sozinha não basta, tecnologia sem pessoas preparadas não funciona e que a aprendizagem contínua deixou de ser diferencial para se tornar uma necessidade real na manutenção.

UPSKILLING (aprimoramento de habilidades ou elevação de competências)

É aprofundar o que você já faz, desenvolver competências mais avançadas dentro da sua função atual. Na manutenção, isso acontece quando o técnico ou gestor aprofunda competências relacionadas à sua própria área, por exemplo:

  • aprender análise de vibração, termografia, ultrassom;
  • dominar indicadores como MTBF, MTTR, OEE;
  • melhorar uso do CMMS/PCM;
  • desenvolver habilidades de liderança e comunicação para gerir equipes.

É crescimento vertical, ou seja, é a evolução do profissional dentro da mesma função ou área, aprofundando competências, responsabilidades e impacto. Foca em profissionais que aprendem novas habilidades para ajudá-los a desempenhar melhor suas funções atuais, ficando mais completo e competitivo. Exemplo de avançar na sua própria função:

Um técnico de manutenção que:passa a dominar análise de falhas, entende criticidade de ativos, interpreta dados de vibração, toma decisões mais autônomas.
Um planejador (PCM) que:aprofunda o uso de indicadores, melhora a priorização, integra planejamento com estratégia, influencia decisões de investimento.
Um engenheiro de manutenção que:evolui de executor para referência técnica, lidera melhorias sistêmicas, orienta equipes, reduz riscos e perdas de forma consistente.

RESKILLING (requalificar)

É o desenvolvimento de novas competências para assumir outros papéis, muitas vezes em resposta a mudanças tecnológicas ou organizacionais, por exemplo:  

  • um técnico mecânico que aprende análise de dados para atuar em preditiva;
  • um inspetor que se capacita para operar ferramentas digitais e dashboards;
  • alguém do PCM que migra para planejamento estratégico ou confiabilidade;
  • profissionais experientes que aprendem IoT, sensores e IA para trabalhar na Manutenção 4.0.

Ocorre quando o profissional se reposiciona, expande sua carreira em outra direção e adquire competências, envolve requalificação e aprendizado de novas habilidades para assumir novas funções dentro da empresa ou se preparar para transição de carreira. Exemplo de expandir sua carreira em outra direção:

Do operacional para o analíticoTécnico mecânico→ Analista de Manutençãodeixa de atuar apenas na execução e passa a: analisar falhas, estudar históricos, apoiar decisões de confiabilidade.
Do operacional para o planejamentoTécnico → PCMPassa a: planejar atividades, definir prioridades, estruturar planos preventivos, integrar manutenção com produção.
Do planejamento para a confiabilidadePCM → Engenharia de ConfiabilidadeEvolui para: análise de falhas recorrentes, revisão de estratégias de manutenção, estudos de criticidade, tomada de decisão baseada em risco.
Do técnico para o digitalTécnico/Engenheiro → Manutenção Preditiva / DigitalPassa a trabalhar com: sensores, análise de dados, dashboards, sistemas e tecnologia.
Do técnico para a liderançaEspecialista técnico → Líder / CoordenadorO foco muda de executar para: desenvolver pessoas, coordenar equipes, alinhar estratégia, entregar resultados sustentáveis.

É crescimento horizontal, ou seja, é a evolução profissional por meio da ampliação de competências e da mudança de função, papel ou escopo de atuação.

Pode-se dizer que a maior barreira não é técnica. É humana.

Já que crescer profissionalmente exige:

  • coragem para admitir o que não sabe;
  • humildade para aprender;
  • disciplina para praticar;
  • ousadia para mudar de rota.

O valor de Upskilling e Reskilling não está na origem dos termos, mas no que eles representam para a carreira na manutenção.

São caminhos diferentes, mas ambos partem da mesma decisão: aprender, se adaptar e evoluir. Esse movimento não é apenas técnico – ele é profundamente humano.

Aprender exige coragem para admitir o que não se sabe, humildade para reaprender e disposição para sair do piloto automático.

Muitas vezes, o maior obstáculo não é a tecnologia, o sistema ou a falta de recursos, mas as crenças que silenciosamente limitam o próximo passo:

  • “sempre fiz assim”,
  • “isso não é para mim”,
  • “já estou velho(a) para aprender algo novo”.

Essas crenças travam carreiras. E aqui vale um reforço importante: vivência não é limite. É base. Experiência acumulada não perde valor quando novas competências são incorporadas, pelo contrário, ela se torna ainda mais poderosa quando combinada com aprendizagem contínua.

Na manutenção moderna, o profissional mais valorizado não é apenas o que executa bem, mas o que aprende rápido, interpreta cenários, colabora, toma decisões melhores e entrega valor de forma consistente.

Crescimento profissional, hoje, não acontece por inércia. Acontece por intenção de aprender, de evoluir e de construir uma carreira alinhada ao futuro da manutenção.

Upskilling e Reskilling não são escolhas excludentes. São alternativas complementares para quem decidiu seguir em movimento. E, no fim, não é o caminho que define o resultado, é a decisão consciente de continuar aprendendo.

Porque, na manutenção, assim como na vida profissional, quem escolhe aprender, escolhe evoluir.

Na manutenção, assim como na vida profissional, quem escolhe aprender, escolhe evoluir — e é essa escolha consciente que impulsiona o crescimento da carreira.

Dica Gestor Gênesis

Para que Upskilling e Reskilling gerem resultados reais, é fundamental ampliar a forma como a organização enxerga crescimento profissional.

Nem todo desenvolvimento precisa seguir o mesmo caminho, nem toda evolução precisa significar promoção hierárquica.

Existem diferentes formas de crescer dentro da manutenção — e reconhecê-las amplia oportunidades, retém talentos e fortalece a aprendizagem contínua.

Algumas categorias de crescimento que podem coexistir dentro da manutenção:

  • Crescimento vertical: aprofundamento na função atual, com mais domínio, autonomia e impacto.
  • Crescimento horizontal: transição para novos papéis, ampliando repertório e visão sistêmica.
  • Crescimento em Y: possibilidade de evoluir como especialista técnico ou líder, com igual valorização.
  • Crescimento diagonal: atuação em funções estratégicas e transversais, conectando manutenção ao negócio.

Resumo visual das principais formas de crescimento profissional

Quando o gestor reconhece e estrutura essas possibilidades, cria um ambiente mais saudável, realista e sustentável, onde aprender faz sentido, crescer é possível, retém talentos, valoriza diferentes perfis e fortalece a aprendizagem contínua como parte da cultura.

Autora: Mara Rejane Fernandes

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